Entrevista – João Pina

entrevista joao pina

Entrevista com João Pina, fotojornalista português nomeado para Prémio Henri Nannen 2011, com diversos trabalhos documentais publicados e premiados em Portugal e no estrangeiro.

Segunda-feira Março 21 2011

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Escrito por Luís Vieira

Recentemente nomeado para o Prémio Henri Nannen 2011 na categoria de foto-reportagem, João Pina, fotojornalista português nascido em 1980, tem percorrido o planeta em busca das histórias que merecem ser contadas e o fruto desse trabalho tem surgido em publicações de prestígio mundial, como o New York Times, El País, Newsweek, GEO Magazine, La Vanguardia Magazine, Expresso, Visão, entre tantos outros.

Guiado por uma agenda muito própria, Pina tem acumulado exposições, prémios e milhas, alternando frequentemente de continente para, com tempo e ponderação, encontrar o melhor ângulo que a história merece.  A história de 25 presos políticos portugueses foi o tema do seu primeiro livro “Por teu livre pensamento“, obra sobre as vítimas do regime fascista que durou 48 anos em Portugal, em que os seus avós fizeram parte da revolta contra esse mesmo regime.

Seja uma reportagem específica sobre um evento ou um trabalho documental que dura vários anos (como o que tem desenvolvido sobre os regimes de tortura e execuções na América do Sul) o olhar de Pina reflecte a necessidade de abrandar para ver e perceber a realidade para além do frenesim noticioso do nosso quotidiano.

fotografia joao pina 01 Entrevista   João Pina

Zoomzine – Olá João, voltaste há pouco da Líbia…como é que correu o trabalho por lá?

João Pina – Foi a terceira vez que estive no norte de África nos últimos 2 meses, primeiro na Tunísia e depois no Egipto. Só o facto de entrar na Líbia, foi toda uma odisseia, é um país muito isolado, em que a maioria das pessoas nunca teve contacto com estrangeiros. Foi muito interessante ter acesso à parte rebelde do país com acesso praticamente ilimitado, mas ao mesmo tempo é sempre duro assistir ao início de um conflito armado, os primeiros dias de combates foram muito duros para a oposição e isso notou-se rapidamente na moral dos rebeldes. Do ponto de vista fotográfico, não é fácil de trabalhar neste tipo de ambientes, mas o mais duro é observar os sonhos de um povo de se libertar de uma ditadura ser esmagado desta forma tão mecânica. Não sei dizer se o trabalho correu bem ou mal, sei que fiquei com vontade de voltar em breve.

ZZ – Tens estado em diversos palcos violentos nos últimos anos, das favelas do Rio de Janeiro à revolução no Cairo. como defines a tua agenda? o que te leva à escolha de determinado local?

JP – A minha agenda é definida sobretudo pelo meu interesse pessoal em determinados lugares/histórias/momentos. Nos últimos 10 anos, tenho focado grande parte do meu tempo e energia na américa latina, mas tenho interesses mais diversos para além de “palcos violentos”. Gosto de aproximar-me desses lugares mas tentar ter um olhar mais distante, menos imediatista ou notícioso, e para isso tenho aprendido que preciso de passar muito tempo nos lugares, e ter o minímo de “pressões” de editores ou clientes possiveis. Portanto, a minha agenda vai sendo definida pelos acontecimentos que me despertam a atenção, mas tento sempre pensar no meu trabalho como algo a mais longo prazo.

fotografia joao pina 02 Entrevista   João Pina

ZZ – Alguma vez sentiste a vida em risco ou passaste por alguma situação mais complicada?

JP – Pôr a vida em risco, faz parte do compromisso que nós assumimos quando vamos para um lugar potencialmente perigoso. À excepção de combates em que tive oportunidade de estar presente, os riscos que mais me assustam são os “invisiveis”, ou seja, ter a vida nas mãos de pessoas que por uma razão ou outra podem decidir que a tua figura ali está a mais.

ZZ – No trabalho com Roberto Saviano para o El País fizeste fotos e video. Como vês a exigência crescente das redacções para que os fotógrafos também façam video? não achas que é arriscado tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo?

fotografia João Pina Roberto Saviano Entrevista   João Pina

JP – Eu comecei a filmar video como uma exploração pessoal em alguns temas em que eu tenho muito tempo e que por isso me permite baixar a máquina fotográfica e pensar em registar coisas diferentes, faço-o várias vezes com a fotografia fotografando em diversos formatos. Já o tinha feito antes com registar alguns sons. Do ponto de vista dos clientes, raramente me pedem para fazer video e só o aceito quando acho que isso não irá pôr em risco a minha função principal que é fotografar. Tenho tido experiências muito variadas com o video, desde produtos que no final ficam na minha opinião bem editados e que funcionam bem em televisão ou na internet, há também ainda muito amadorismo nas redacções, e ás vezes há surpresas desagradáveis no que toca a editar e fazer algo coerente. Acho que vivemos um tempo de muitas experiências, e em que quase tudo é válido, no que concerne o video continuo a filmar muito esporádicamente mas raramente proponho que as publicações façam algo com isso.

ZZ – Fala-nos um pouco do trabalho relativo à Operação Condor. Podemos dizer que ele é fruto do que se passou com teus avós?

fotografia João Pina Operação Condor Entrevista   João Pina

JP – O meu trabalho relativo à Operação Condor (processo de captura, tortura, desaparição forçada e execuções) que aconteceu no cone sul da América Latina, vai de encontro com uma parte importante do meu trabalho pessoal. Desde que comecei a trabalhar como fotógrafo tive sempre uma relação importante com o preservar da memória, e preocupa-me o facto de ter nascido num país que não preserva a sua memória colectiva. Isso fez com que durante vários anos tivesse em conjunto com um amigo que é escritor, investigado sobre ex presos políticos portugueses dos quais os meus avós fazem parte. Isso culminou na publicação do meu 1º livro “Por teu livre pensamento” em 2007. Já durante o processo do livro em Portugal, comecei a interessar-me por outros países em que também eles viveram dictaduras tendo sido elas de “direita” ou de “esquerda” e por isso quando terminei o trabalho em Portugal naturalmente continuei a investigação noutros lugares. A operação condor é o projecto que neste momento está mais adiantado (ainda que falte bastante para terminar) de uma série de outros lugares no mundo que eu quero continuar a explorar o tema da repressão política.

ZZ – Voltando atrás no tempo, como nasceu em ti o gosto pela fotografia? Que influências ou fotógrafos admiras?

JP – Não sei dizer como nasceu em mim o gosto pela imagem e pela fotografia. Lembro-me sim que muito novo comecei a fotografar de forma insistente muitas coisas que fazia e os meus amigos e isso foi crescendo até ter começado a trabalhar como fotógrafo aos 18 anos. Admiro muitíssimos fotógrafos de escolas muito diferentes, desde os clásicos Robert Capa e Cartier Bresson, ao Edward Burtynsky e Antoine D’Agata entre muitos outros, mas as minhas influências mais fortes vem bem mais do mundo da música do que própriamente da imagem.

ZZComo assim?…

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JP – As minhas influências vêm de um mundo auditivo e não tanto do visual. Quando estou a fotografar, muitas vezes estou a pensar em música e as imagens que vejo têm uma “banda sonora”. Mais do que tentar-me colar a algum estilo fotográfico, eu penso bem mais em músicas que me transmitem as emoções que eu quero captar quando fotografo.

ZZ – O trabalho em situações de conflito tem certamente exigências próprias. O que trazes habitualmente contigo em termos de equipamento?

JP – O trabalhar em situações de conflito por si não tem exigências particulares, tudo depende é do que queres trazer como imagem e para que o vais usar. Se eu for para um determinado país para criar uma reportagem para um jornal/revista normalmente faço-o com máquina/s digital com as únicas 3 objectivas que uso 35mm 24mm e 50mm todas elas fixas, por exigências de tempo e ter que muitas vezes enviar as fotos ainda in-loco.
É também muito frequente eu fotografar em paralelo noutros formatos, tenho alternado entre vários, dependendo de como eu veja a história, desde uma camera panoramica, até médio formato 6×6 e 6×7. Ultimamente começei também a trabalhar com grande formato e estou muito tentado a levar uma máquina de grande formato em alguma viagem proximamente. Assim permito-me aproximar de uma forma muito diferente à história e naturalmente ter imagens algo diferente das fotografias de notícia. O que acontece também muitas vezes é eu ir acumulando estas imagens sem necessáriamente lhes dar uma utilização imediata.

ZZ – Tens alternado trabalho mais documental e sereno com a adrenalina dos conflitos que abrem os noticiários. Preferes algum dos dois? é verdade, como se diz, que essa adrenalina pode ser viciante?

screen capture 92 Entrevista   João Pina

JP – Não sinto que tenha alternado, apenas procuro histórias que me interessem a um nível pessoal. Sejam elas, sociais, políticas ou bélicas (muitas vezes com tudo conjugado) e eu olho sempre para estes trabalhos de uma forma documental. Eu comecei a trabalhar sobre a violência no Rio de Janeiro e ninguém queria saber de violência na cidade maravilhosa, comecei a ir para o Afeganistão e praticamente não havia imprensa porque o foco era todo no Iraque. Se estão nas notícias ou não, é para mim por principio absolutamente irrelevante, o que me interessa é o que estou a fotografar, não onde é que as imagens vão sair. Claro que trabalhando como fotojornalista e sendo esta a única fonte de rendimentos na minha vida, é importante depois conseguir publicar as fotografias e dar a conhecer as histórias, mas sinceramente não sinto que isso seja primordial.
O adrenalina de que falas está em grande parte mitificada (também pela imprensa). A grande maioria das zonas de conflito, são momentos de conflito intercalados com muito mais tempo “off”, portanto não existe seguramente mais adrenalina do que fotografar um Porto-Benfica ou num concerto de Rock. Existe sim o factor risco, que pode ser interessante, mas para mim é muito secundário. O que me interessa nos conflitos é normalmente o tempo “off” em que aparentemente nada se passa, mas na prática se conseguem fazer imagens bem mais absurdas do que debaixo de fogo.

ZZ – Como que achas que teria sido o teu percurso profissional se tivesses ficado em Portugal? como vês o estado do fotojornalismo em Portugal actualmente?

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JP – Estar a especular como poderia ter sido o meu percurso acho que é redundante. Desde cedo na minha trajectória profissional entendi o que me interessava, e tudo isso estava muito longe de Portugal e por isso arrisquei e saí, primeiro para trabalhar em histórias que queria fotografar, e depois para construir uma rede de contactos no mundo editorial que me permita continuar a fotografar as histórias que quero, e nenhuma destas coisas era possível se eu só olhasse para Portugal e o mercado português.
Há hoje em Portugal fotógrafos a fazer tão bom trabalho como em qualquer parte do mundo, tanto no jornalismo diário, semanário ou desportivo. O problema na minha opinião é praticamente não haver espaço na imprensa portuguesa para reportagem, e este ser visto como um parente pobre do jornalismo, que saí caro e muitas vezes aborda temas que não interessam aos leitores e aos anunciantes. Eu cresci a ler reportagens na imprensa e isso foi fundamental para a forma como eu compreendo o Mundo hoje, lembro-me bem de trabalhos feitos pelo Pedro Loureiro, António Pedro Ferreira, Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha entre muitos outros. Na geração mais nova, existe vontade de trabalhar em temas, mas muitas vezes não há espaço para depois publicar, o que faz muitos fotógrafos esmorecerem e não continuarem a trabalhar em determinado tema porque não vêm uma saída para ele.
Sei também que as publicações mais respeitadas no mundo, apostam muito em ter reportagem de fundo nas suas páginas e acho sinceramente que é uma das soluções para o problema crónico que a imprensa vive hoje em dia. Portugal muitas vezes sofre do complexo de ser um país satélite e então quem dirige as publicações fica sempre à espera do que se faz em Espanha, França ou Estados Unidos para ir a correr copiar, enquanto assim for estaremos sempre atrás e a cometer os mesmos erros que os outros já cometeram, com a diferença que os meios financeiros para o fazer são sempre menores.

ZZ – Existe algum projecto de sonho? algo que gostasses de fazer em particular?

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JP – O meu projecto de sonho era ser fotógrafo, poder ganhar a vida com isso, correr atrás de histórias e entrar em realidades muito diferentes da minha, da que eu cresci ou fui educado. Esse sonho eu vivo-o todos os dias com uma enorme alegria.
Tenho sempre várias coisas a acontecer ao mesmo tempo, algumas coisas que estou agora a colher frutos comecei-as à vários anos e funcionaram, outras ainda não, mas com tempo e trabalho espero continuar a aprofundar alguns trabalhos que tenho feito e que para mim são muito mais do que meras reportagens em páginas de revistas ou jornais.

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João Pina é membro da agência Kameraphoto e o seu trabalho pode também ser acompanhado no seu site pessoal.

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